Moinho dos Anselmos

Começo por um exemplar que encontrei casualmente e me revelou pela primeira vez uma tipologia de rodízio de características únicas: o rodízio de copos.
Situa-se no lugar de Pretos, freguesia de Merufe, aquele que foi, até agora, o primeiro moinho com um rodízio de copos a ser referenciado.
A origem deste exemplar bastante bem conservado é desconhecida mas já terá mais de trezentos anos, pelo que me disse o decano dos quatro irmãos co-proprietários, conhecidos pelos Anselmos, porque Alselmo era o seu avô. E se a longevidade dos Anselmos for uma questão genética, não será difícil acreditar que os trezentos anos se resumam a pouco mais do que três gerações porque, dos três que tive o grato prazer de conhecer, o mais novo, o Anselmo Vasques Fernandes, tem setenta e cinco anos de idade, o António oitenta e dois e o Manuel irá completar oitenta e cinco no próximo dia 15 de de Outubro.
Quem sabe tudo sobre o Moinho dos Anselmos é o Manuel Vasques Fernandes, que mora nas Poldras, Segude. Homem dos sete ofícios, o Senhor Manuel fazia de tudo: pedreiro, carpinteiro, ferreiro e, certamente, muitas outras artes e ofícios, que na sua criação havia que improvisar de tudo um pouco.
Contou-me ele que o moinho da família tinha um rodízio de penas e um cubo de caixa, um cubalhão feito de perpianhos colocados ao alto, uma espécie de tanque enorme a cujo interior o Manuel acedeu várias vezes com uma escada para tapar as juntas com cimento. Contudo, a pressão da água e a frágil construção acabavam por abrir novas fendas e muita da água escoava-se fazendo diminuir a pressão e, consequentemente, a força do moinho.
Por isso, seu pai mandou fazer um novo cubo de anéis de granito, dispostos uns em cima dos outros com adequada inclinação, tendo também complementado essa peça com uma seteira em cimento.
Depois disso, decidiram alterar também o conhecido modelo de rodízio de penas por um rodízio de copos que, pelo que me disse o Senhor Manuel, já guarnecia diversos engenhos de moagem lá por Merufe. O primeiro rodízio de copos, construído pelo Senhor Manuel, era todo em madeira. O actual foi feito com aplicação das telas laterais de um pneumático de tractor agrícola no lugar dos aros de madeira que guarnecem os aros inferior e superior do rodízio.
Com as alterações então introduzidas, o moinho ganhou eficácia e passou a funcionar muito melhor.
O rodízio tem um raio de 46 centímetros a contar da periferia do touço, nome pelo qual é por eles designada a haste, e este tem uma espessura de 16 centímetros, o que lhe confere um diâmetro de 108 centímetros, aproximadamente.
Apesar de notar um enorme carinho e até orgulho no seu engenho da parte dos proprietários, temo que num lapso de tempo não muito distante o mesmo acabe como muitos outros com que me tenho deparado nas minhas prospecções, um amontoado de escombros coberto de mato.
Está ali, bem "camuflado, no meio de densa vegetação
Uma belíssima construção e integração na paisagem
Rodízio de Copos
No interior com o António (à esquerda) e o Anselmo (à direita)
As mós
A adelha
O aliviadouro

Nota: Este artigo foi publicado originalmente no Facebook.
Publicado por Eira-Velha às 19:19 | link do post | comentar