Moinho da Cumeeira

Por estes dias deslocava-me em automóvel pela estrada municipal 1124 de Badim para Cousso, quando vislumbrei na vertente do lado direito uma construção que me pareceu um moinho. Estranho achado num sítio daqueles, longe de qualquer aglomerado habitacional, fora de qualquer linha de água, em suma, perdido em plena vertente sul da serra da Cumeeira, onde se interceptam os limites geográficos de várias freguesias dos concelhos de Monção e Melgaço.

Parei a marcha e saí, mau grado o vento impregnado de chuva e um frio cortante, para me certificar.

 

 

Não havia quaisquer dúvidas que se tratava de um moinho e, a avaliar pela imagem, devia ter sido um engenho muito interessante.

Meti os pés ao caminho e fui investigar.

 

A primeira conclusão relaciona-se com a água que gerava a força motriz do engenho. Como se pode observar, o canal que agora se encontra guarnecido de elementos de cimento e que outrora era apenas em terra faz parte da famosa levada que, tendo início no Rio Mouro, lá para as bandas de Lamas do Mouro, seguia pela encosta da serra até Pomares onde se dividia em dois cursos diferentes sendo este ramal o que levava a água para regar os campos de Cousso, Virtelo, Quintela, Badim, e Ceivães. Repare-se que a levada segue até ao aqueduto que abastece o magnífico cubo numa determinada cota e depois do moinho aparece numa cota inferior, precisamente para recuperar a água na boca do "inferno".

 

Outro dado importante não deixa de ser o aqueduto que vai da levada para o cubo. Como se pode observar é feito em cimento e tem ao meio do vão um suporte também em cimento mas revestido com um tubo de pvc, tudo materiais que se vulgarizaram a partir de meados do século passado, sendo assim levados a concluir que este engenho foi alvo de obras de conservação num tempo que podemos considerar recente. Outra conclusão óbvia é que antes deste aqueduto a água devia chegar ao cubo através de uma cale de madeira porque se fosse de granito, como é muito comum, teria resistido e perdurado tal como o esto da construção.
Todo o conjunto mantém um traço bem característico dos moinhos do Alto Minho mas sobressai em especial, pelo magnífico trabalho de pedreiro, o belíssimo cubo vertical.
Do interior não temos grandes notícias. À semelhança de muitos outros resta apenas a mó fixa. Esta imagem também explica a razão do tecto, em lajes de granito, ter ruido parcialmente. Como assentavam em traves de madeira e estas nao resistiram à sanha devoradora das chamas acabaram, naturalmente, por cair algumas e outras estão na iminência de o fazer.
No cabouco ainda podemos observar a parte superior da haste (ou touço, como foi designado pelos "Anselmos" de Merufe). Seria interessante escavar aqueles sedimentos para ver se o rodizio ainda lá se encontra...
Ao fundo podemos ainda observar os estragos causados no pavimento do piso superior com a queda das lages do tecto.
Uma parte já ruiu, o resto irá com o tempo... Uma pena...
Por último importa referir que este magnífico moinho pertencia a Quintela, freguesia de Riba de Mouro, disso-mo uma senhora lá residente, um autêntico repositório de lembranças de outros tempos. Conversa vem, conversa vai, também fiquei a saber que parte dos campos de Quintela eram regados com a água da famosa levada e que havia um aguadeiro de serviço permanente a cuidar da sua conservação, cuja remuneração era paga em milho, de acordo com as horas de regadio que cada agricultor detinha.
O mundo mudou, e muito, e muito depressa...
Publicado por Eira-Velha às 17:49 | link do post