Moinho de Cimo de Vila - Merufe

No Alto Minho os moinhos de água proliferaram como cogumelos. Para tal conjugaram-se factores diversos que favoreceram a adopção deste tipo de engenhos, designadamente abundância de água e condições excepcionais para o cultivo do milho, a que não foi alheio um forte crescimento demográfico no Século XIX.

Mesmo que o equilíbrio entre população e subsistência se tenha rompido posteriormente, os moinhos continuaram a ser um instrumento importante para a economia doméstica sobrevivendo até meados do Séc XX. Então, o forte fluxo emigratório, a drástica diminuição do valor do milho e consequente quebra no cultivo deste cereal foram factores importantes para o seu declínio mas a principal causa da ruína desses fabulosos engenhos foi a adopção dos modernos e práticos moinhos domésticos movidos a energia eléctrica. De tal modo que, numa das minhas incursões pela rota dos moinhos de Merufe, ao perguntar a uma senhora idosa onde ficavam os moinhos de Santo André respondeu-me que estavam nas casas da povoação, tendo-me obrigado a reformular a pergunta e a referir expressamente os moinhos de água.

Por tudo que fica exposto é fácil perceber porque razão os moinhos de água da minha terra estão em vias de extinção. Por todo o lado tenho encontrado vestígios de ruínas (e já referenciei algumas dezenas) mas a funcionar poderão ser uns quatro ou cinco: dois ou três em Lordelo, um em Barroças e Taias e o último este de Cimo de Vila, em Merufe.

Foi o acaso que me levou até este simples e simpático moinho.

Depois de ter referenciado três moinhos em Santo André e um no Ribeiro, passava em Cimo de Vila quando avistei aquela construção e, como sempre, o meu instinto não me enganou: era mesmo um moinho e, surpresa das surpresas, tinha a chave na porta e foi-me permitido observar todos os mecanismos e sinais de que ali ainda se faz farinha.

O meu regozijo só não foi maior porque o sistema de propulsão, para contrariar as minhas expectativas, assenta no tradicional rodízio de penas... Pena mesmo é não ter visto ninguém que me pudesse fornecer algumas informações sobre o mesmo mas na povoação seguinte fui informado que é propriedade de uma família que reside em Cimo de Vila. É de elementar justiça felicitar essa família pelo facto de manterem em funcionamento aquela preciosidade, certo de que além de lhe dedicarem muito carinho, o facto de pertencer a uma só família terá sido fundamental para a sua conservação. É que, regra geral, os moinhos são de vários herdeiros e quando assim é o abandono é mais do que certo.

Com uma construção extremamente simples, o moinho de Cimo de Vila é um resistente aos ventos da modernidade.

 

Aqui estão todos os sinais de que ainda não há muito tempo fez farinha: o pó branco, um rato que se esgueirou por um daqueles buracos e, essencialmente, o cheiro da farinha. De realçar, o mecanismo de regulação da tremonha que se pode ver em frente da adelha: um dispositivo rotativo cujo funcionamente será mais explícito na imagem seguinte.

 

De realçar, o mecanismo de regulação da tremonha que se pode ver em frente da adelha: um dispositivo rotativo cujo funcionamento será mais explícito na imagem seguinte. À esquerda podemos ver também o tanganho.

 

As mós, a vassoura, a tremonha e respectivo sistema de regulação: ao rodar a peça de madeira que se vê na fotografia anterior, o cordel de suspensão aperta ou desaperta fazendo diminuir ou aumentar o fluxo de grão para o olho da mó.

 

Reservatório da farinha (ou tremonhado) e a típica pá para a apanhar.

 

Muito original, este aliviadouro. Em vez da tradicional cruz tem uma alavanca com um braço mais extenso através do qual é feita a regulação da moagem.

 

Mecanismo de propulsão.


Publicado por Eira-Velha às 16:02 | link do post | comentar