Os Moinhos de Monção

No concelho de Monção, os moinhos de água proliferaram como cogumelos. Para tal conjugaram-se factores diversos que favoreceram a adopção deste tipo de engenhos, designadamente abundância de água, condições excepcionais para o cultivo do milho, a que não foi alheio um forte crescimento demográfico no Século XIX e uma arquitectura e tecnologias muito simples e económicas. Eram, na maior parte dos casos, pequenas unidades de um só par de mós e propriedade de vários titulares cuja quota-parte era medida em tempo de moagem.
É um património vastíssimo e de difícil inventariação dado o estado de degradação e abandono quase total a que foi votado a partir da segunda metade do Século passado.
Segundo dados recolhidos por Magnus Wolfe Murray através dos arquivos da Delegação de Viana do Castelo da Administração dos Recursos Hídricos do Norte, em 1941 havia registo de 663 moinhos no concelho de Monção, distribuídos conforme consta da ilustração que se segue, também da sua autoria:
A prodigalidade do número de unidades existentes em 1941 é perfeitamente compreensível no contexto do sistema agrário da região – o minifúndio – e da hidrografia que, fazendo parte da bacia hidrográfica do Rio Minho, é composta por uma densa rede de córregos e ribeiros que alimentam os principais cursos de água, o Mouro e o Gadanha excluindo-se, naturalmente, o rio Minho em cujo percurso não me parece que tenha existido qualquer unidade moageira.
Esquema meramente exemplificativo da rede hidrográfica no concelho de Monção
Se o regime de propriedade e as condições hidrográficas favoreceram a construção massiva de moinhos, a falta de vias de comunicação e de transportes também provocava o isolamento das populações e obrigava as comunidades a tornarem-se praticamente auto-suficientes, reforçando as condições para a multiplicação dos engenhos transformadores da matéria prima.
Outro factor a ter muito em conta na profusão destes engenhos é a simplicidade da tecnologia empregue, construída quase na totalidade com recursos naturais locais (a madeira e o granito). De produção industrial verifica-se apenas o recurso a duas peças fundamentais para o funcionamento dos moinhos: a segurelha e o veio, dois artifícios em aço que, combinados, transmitem o movimento de rotação do rodízio, provocado pela força da água, à mó movente de forma directa, isto é, o número de rotações do rodízio é o mesmo que se verifica na mó andadeira.
As causas que favoreceram o abandono e a ruína dos moinhos do Alto Minho são diversas mas podemos destacar duas:
  • O abandono gradual das terras devido ao êxodo massivo da população activa que se verificou nas décadas de sessenta e setenta do século passado associado a uma forte desvalorização dos produtos agrícolas, especialmente o milho que, em tempo de crise, era usado como moeda nas trocas comerciais;
  • A introdução de pequenas e práticas unidades domésticas de moagem, movidas a energia eléctrica.
Há ainda outro factor a ter em conta que foi o sistema de propriedade. De facto, a grande maioria destes engenhos teria sido construída em regime de co-propriedade e mesmo aqueles que pertenciam a um só proprietário acabaram por ser espartilhados através de heranças sucessivas. No lugar de Cavenca, em Riba de Mouro, havia casos em que uma família só tinha direito a um dia ou noite de moagem de três em três meses. Claro que, quanto mais dividida fosse a propriedade, maior era a tendência para o abandono o que, aliado aos outros factores enunciados, ditou a “morte” prematura de muitos e a ruína completa da maior parte.
Dos que resistiram a todas as adversidades falta fazer um inventário. Serão ainda duas ou três dezenas e, em geral, subsistem nas aldeias mais montanhosas onde ainda se verifica alguma criação de gado e cultivo de cereais.
Os moinhos de Monção, salvo raras excepções, caracterizam-se por ser uma construção muito pequena e isolada, de uma ou duas águas, feita em pedra solta com prevalência do granito ou do xisto e, muitas vezes, uma mistura das duas, sendo a cobertura feita de telha de canudo (gradualmente substituída por telha marselha). Primitivamente a cobertura também poderia ser de colmo e, em tempos mais recentes, passaram a usar-se outros materiais de maior durabilidade tais como a folha zincada ou placas de cimento.
Algumas excepções encontramo-las apenas nos últimos troços do curso dos rios Mouro e Gadanha onde existem vestígios de unidades moageiras de dimensão considerável, com casa para o moleiro e seguramente para a família, o que denota tratar-se de explorações que ultrapassavam o âmbito meramente familiar.
No que diz respeito à tipologia são três os grupos distintos que encontramos na região: os moinhos de azenha de propulsão inferior, muito raro mas do qual há vestígios no rio Mouro, no lugar de Ponte do Mouro, freguesia de Ceivães; os moinhos de rodete submerso com forte implantação no Vale do Gadanha, no rio Mouro e também, pelo menos um, na ribeira de Lara e os moinhos de rodízio ou de roda motriz horizontal, de forma mais generalizada por todo o concelho.
Os rodízios mais conhecidos são os rodízios de penas, incluindo-se nesta designação uma variante muito comum e de mais simples concepção que é o rodízio de tacos. Porém, há uma freguesia de Monção onde se desenvolveu e sedimentou um modelo de rodízio que parece permanecer incógnito perante a comunidade molinológica: é o rodízio de copos cuja implantação tem o seu centro em Merufe, podendo repercutir-se pontualmente em algumas localidades limítrofes.
Neste espaço pretendemos inventariar, através de imagens, descrições e localização, o maior número possível destes fabulosos engenhos, do concelho de Monção e não só...

Nota importante: Este texto, à excepção do último parágrafo, faz parte de um artigo da minha autoria a publicar num dos próximos números de Molinologia Portuguesa
Publicado por Eira-Velha às 21:31 | link do post | comentar