Moinhos do Rosal

No Alto Minho é muito fácil descobrir moinhos, principalmente se se percorrerem os caminhos com esse objectivo em mente. E a razão é óbvia: por aqui deu-se muito bem o milho e em tempo de vacas magras, que ainda não vai assim tão distante, em todas as casas se fabricava broa de milho, mais ou menos uma vez por semana. E digo mais ou menos porque para isso era preciso ter grão, do grão fazer farinha e só com este elemento era possível fazer pão, o que nem sempre acontecia.

Mas, dizia eu, é quase tão fácil descobrir um moinho no Alto Minho como um chaparro no Alentejo.

Alguns meses atrás, ia eu a subir custosamente pela estrada municipal n.º 1124, de Ceivães para Badim, quando de repente, na linha de horizonte da íngreme encosta, avisto um magnífico cubo de granito, numa posição bem vertical, na extremidade inferior de um imenso muro do mesmo material que começava com uma altura de uns seis metros e morria cerca de cinquenta metros mais acima na mesma encosta. Algo incrédulo, encostei o meu "rocim" de duas rodas na valeta e desloquei-me a pé até ao local onde avistara o precioso achado e confirmou-se: era um conjunto de três moinhos tipicamente minhotos, um praticamente engolido pela vegetação mas outros dois integrados numa moderna plantação de vinha e com algumas obras de restauro nas graníticas paredes dos moinhos propriamente ditos já que os cubos e os muros que suportavam a conduta da água evidenciam uma perfeição tal que resistiram a todas as adversidades.

Dos elementos de madeira não existe absolutamente nada e da água, elemento essencial para gerar a força motriz que os fez funcionar também não se vislumbram quaisquer indícios. Não há água, não há qualquer ribeiro, ou regato, ou simplesmente uma corga por perto... nada.

Já tinha visto um caso semelhante em Boivão, Valença, um caso particular de disposição dos engenhos fora do curso de água, como é mais comum, mas ali estava sempre presente uma grossa conduta de material plástico que transporta o generoso manancial lá das alturas do Castelo de Fraião até ao vale. Mas neste caso nem isso...

Só havia uma forma de saber o que fazia funcionar aqueles engenhos e para tal era preciso encontrar gente, tarefa que não foi fácil dado que o local fica fora de qualquer aglomerado populacional. As últimas casas de Ceivães já tinham ficado para trás e Badim ainda não tinha começado. Por isso, fui à procura de respostas para as minhas dúvidas e segui para Badim.

Aqui tive a sorte de encontrar a senhora Prazeres Dias Monteiro, oriunda da Gave mas com raízes de cerca de meio século em Badim que, muito amável e a transbordar simpatia, se prestou a dois dedos de conversa enquanto atendia um fornecedor de artigos de mercearia, um pequeno comércio sua propriedade que ainda sobrevive lado a lado com um café.

E disse-me ela que todos aqueles moinhos funcionavam com a água da levada oriunda de Lamas do Mouro!

Eu habituei-me a ver, desde muito pequenino, o trajecto da levada pela Cumieira fora, desde Pomares, passando por Cousso e Virtelo, até se perder de vista pela serra abaixo por cima de Quintela... E contava-se que há muitos, muitos anos, aquando da ocupação árabe, três irmãos mouros eram os senhores das terras do Vale do Mouro, um na zona da nascente, em Lamas do Mouro, outro na zona intermédia em Riba de Mouro e o terceiro na zona da foz, na Ponte do Mouro. Acontecia que o primeiro tinha água em abundância mas não tinha vinho, o segundo tinha água e vinho suficientes e o terceiro possuía vinho em excesso mas carecia de água. Então combinaram que o de Lamas do Mouro forneceria água ao de Ponte do Mouro e este, em troca, forneceria o vinho ao primeiro.

Se o vinho chegava a Lamas do Mouro eu não sei mas a água de Lamas do Mouro regou as terras de Badim, Messegães e Ceivães até há bem pouco tempo. Era uma levada de aproximadamente dezoito quilómetros que, pelos vistos, também fazia mover os moinhos de Badim e Ceivães, na zona da Moucheira, que mais no vale tinham as águas do rio Mouro e os moinhos da Ponte do Mouro...

Só que entretanto a levada foi renovada e entubada, talvez à custa de um desses programas que faziam chegar dinheiro não sei de onde para obras que deveriam rentabilizar a economia mas, à semelhança de muitos outros investimentos análogos, a obra foi feita mas não serviu para nada porquanto nunca mais a água de Lamas do Mouro passou além de Virtelo.

Voltando aos "meus" moinhos, trata-se de uma construção de "planta quadrangular e dois pisos, sendo o térreo (ou ‘cabouco’) parcialmente aberto para alojar o ‘rodízio’ horizontal e no andar sobradado estava instalada o casal de mós e restantes peças do mecanismo-motor.

Paredes autoportantes em blocos de granito com ligeiro desbaste e junta seca, salientando-se, pelas suas dimensões e trabalho de pico, as padieiras e ombreiras das portas. Originalmente eram cobertos com telhados de uma água (...). Os vãos são escassos, resumindo-se à porta de acesso e a alguma fresta, quando exista.

Como se encontram em encosta com declive acentuado eram alimentados pela mesma levada escavada sobre aqueduto em pedra seca em cuja parte terminal se situa o ‘cubo’, composto por anéis pétreos sobrepostos de modo a fazer altura para que a água caísse com força e fizesse accionar o rodízio".

A citação anterior não se refere a estes engenhos mas serve para a grande maioria dos moinhos do alto minho e, no presente caso, encaixa perfeitamente na descrição que eu faria mas para a qual me faltam conhecimentos técnicos adequados.

Impressionantes neste magnífico conjunto são os extraordinários cubos e os aquedutos para lá fazer chegar a água, como se pode observar nas imagens.

 

Este foi o primeiro moinho que avistei. O perfil recortado na linha de horizonte dá uma imagem imponente da grandiosidade destes engenhos. 

 

O conjunto revela um trabalho realmente notável.

 

As pareces do moinho foram consolidadas com cimento mas o interior é isto...

 

 

Imediatamente acima o segundo moinho

 

Não menos espectacular que o primeiro.

 


Publicado por Eira-Velha às 08:16 | link do post