Sexta-feira, 05.04.13

Moinho da Cumeeira

Por estes dias deslocava-me em automóvel pela estrada municipal 1124 de Badim para Cousso, quando vislumbrei na vertente do lado direito uma construção que me pareceu um moinho. Estranho achado num sítio daqueles, longe de qualquer aglomerado habitacional, fora de qualquer linha de água, em suma, perdido em plena vertente sul da serra da Cumeeira, onde se interceptam os limites geográficos de várias freguesias dos concelhos de Monção e Melgaço.

Parei a marcha e saí, mau grado o vento impregnado de chuva e um frio cortante, para me certificar.

 

 

Não havia quaisquer dúvidas que se tratava de um moinho e, a avaliar pela imagem, devia ter sido um engenho muito interessante.

Meti os pés ao caminho e fui investigar.

 

A primeira conclusão relaciona-se com a água que gerava a força motriz do engenho. Como se pode observar, o canal que agora se encontra guarnecido de elementos de cimento e que outrora era apenas em terra faz parte da famosa levada que, tendo início no Rio Mouro, lá para as bandas de Lamas do Mouro, seguia pela encosta da serra até Pomares onde se dividia em dois cursos diferentes sendo este ramal o que levava a água para regar os campos de Cousso, Virtelo, Quintela, Badim, e Ceivães. Repare-se que a levada segue até ao aqueduto que abastece o magnífico cubo numa determinada cota e depois do moinho aparece numa cota inferior, precisamente para recuperar a água na boca do "inferno".

 

Outro dado importante não deixa de ser o aqueduto que vai da levada para o cubo. Como se pode observar é feito em cimento e tem ao meio do vão um suporte também em cimento mas revestido com um tubo de pvc, tudo materiais que se vulgarizaram a partir de meados do século passado, sendo assim levados a concluir que este engenho foi alvo de obras de conservação num tempo que podemos considerar recente. Outra conclusão óbvia é que antes deste aqueduto a água devia chegar ao cubo através de uma cale de madeira porque se fosse de granito, como é muito comum, teria resistido e perdurado tal como o esto da construção.
Todo o conjunto mantém um traço bem característico dos moinhos do Alto Minho mas sobressai em especial, pelo magnífico trabalho de pedreiro, o belíssimo cubo vertical.
Do interior não temos grandes notícias. À semelhança de muitos outros resta apenas a mó fixa. Esta imagem também explica a razão do tecto, em lajes de granito, ter ruido parcialmente. Como assentavam em traves de madeira e estas nao resistiram à sanha devoradora das chamas acabaram, naturalmente, por cair algumas e outras estão na iminência de o fazer.
No cabouco ainda podemos observar a parte superior da haste (ou touço, como foi designado pelos "Anselmos" de Merufe). Seria interessante escavar aqueles sedimentos para ver se o rodizio ainda lá se encontra...
Ao fundo podemos ainda observar os estragos causados no pavimento do piso superior com a queda das lages do tecto.
Uma parte já ruiu, o resto irá com o tempo... Uma pena...
Por último importa referir que este magnífico moinho pertencia a Quintela, freguesia de Riba de Mouro, disso-mo uma senhora lá residente, um autêntico repositório de lembranças de outros tempos. Conversa vem, conversa vai, também fiquei a saber que parte dos campos de Quintela eram regados com a água da famosa levada e que havia um aguadeiro de serviço permanente a cuidar da sua conservação, cuja remuneração era paga em milho, de acordo com as horas de regadio que cada agricultor detinha.
O mundo mudou, e muito, e muito depressa...
Publicado por Eira-Velha às 17:49 | link do post | comentar
Terça-feira, 15.11.11

Pelo Vale do Gadanha - Moinhos de Pinheiros I

O rio Gadanha é um afluente do Minho que não constava dos mapas nem das lenga-lengas que se cantarolavam nas Escolas Primárias do meu tempo. Do Minho dizia-se apenas que "nasce nos Montes Cantábricos em Espanha, passa por Melgaço, Monção e Valença e vai desaguar junto de Caminha. Tem de afluente na margem esquerda o Coura"...

É muito pouco para caracterizar o Vale do Minho e uma injustiça para os vales banhados pelos rios Mouro e Gadanha.

O Vale do Gadanha, além de ser extremamente fértil, é rico em património arquitectónico, etnográfico e histórico que merece ser conservado, acarinhado, realçado e divulgado exaustivamente.

Um dos motivos de interesse com um forte potencial para ser explorado são os inúmeros moinhos. Muitos já "descobertos", muitos mais ainda por "descobrir", eles são marcos na paisagem ao longo de todo o percurso do rio Gadanha.

Desde a nascente, lá na serra, por cima de Anhões, até à foz, em Troporiz, eles pontificam nas margens do Gadanha e outros cursos de água que confluem para este. São, na sua grande maioria, apenas ruínas de um passado não muito distante que se ocultam no denso matagal que ladeia as margens, envergonhados da inércia e ingratidão dos proprietários, homens e mulheres, em regra, filhos e netos daqueles que os criaram e lhes deram vida...

Em Pinheiros, situa-se um importante núcleo molinológico que, pela excelente localização e acessibilidade, bem poderia transformar-se num polo de divulgação deste rico e vasto património.

As imagens que se seguem reportam-se, apenas, ao conjunto de moinhos situado a jusante da magnífica Ponte Medieval.

 

São três ou quatro, geminados e perfeitamente individualizados, cada qual com o seu único par de mós.

 

 

Todos eles são movidos a água, através do sistema de rodete submerso.

 

Na imagem que se segue observamos as comportas onde o caudal de água era regulado.

 

Este ainda revela sinais recentes de funcionamento.

 

Aqui já são maiores os estragos provocados pelo abandono.

 

A represa que os alimentava também forma uma magnífica praia fluvial. O local é lindo!


Publicado por Eira-Velha às 16:01 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 25.10.11

Moinho de Cimo de Vila - Merufe

No Alto Minho os moinhos de água proliferaram como cogumelos. Para tal conjugaram-se factores diversos que favoreceram a adopção deste tipo de engenhos, designadamente abundância de água e condições excepcionais para o cultivo do milho, a que não foi alheio um forte crescimento demográfico no Século XIX.

Mesmo que o equilíbrio entre população e subsistência se tenha rompido posteriormente, os moinhos continuaram a ser um instrumento importante para a economia doméstica sobrevivendo até meados do Séc XX. Então, o forte fluxo emigratório, a drástica diminuição do valor do milho e consequente quebra no cultivo deste cereal foram factores importantes para o seu declínio mas a principal causa da ruína desses fabulosos engenhos foi a adopção dos modernos e práticos moinhos domésticos movidos a energia eléctrica. De tal modo que, numa das minhas incursões pela rota dos moinhos de Merufe, ao perguntar a uma senhora idosa onde ficavam os moinhos de Santo André respondeu-me que estavam nas casas da povoação, tendo-me obrigado a reformular a pergunta e a referir expressamente os moinhos de água.

Por tudo que fica exposto é fácil perceber porque razão os moinhos de água da minha terra estão em vias de extinção. Por todo o lado tenho encontrado vestígios de ruínas (e já referenciei algumas dezenas) mas a funcionar poderão ser uns quatro ou cinco: dois ou três em Lordelo, um em Barroças e Taias e o último este de Cimo de Vila, em Merufe.

Foi o acaso que me levou até este simples e simpático moinho.

Depois de ter referenciado três moinhos em Santo André e um no Ribeiro, passava em Cimo de Vila quando avistei aquela construção e, como sempre, o meu instinto não me enganou: era mesmo um moinho e, surpresa das surpresas, tinha a chave na porta e foi-me permitido observar todos os mecanismos e sinais de que ali ainda se faz farinha.

O meu regozijo só não foi maior porque o sistema de propulsão, para contrariar as minhas expectativas, assenta no tradicional rodízio de penas... Pena mesmo é não ter visto ninguém que me pudesse fornecer algumas informações sobre o mesmo mas na povoação seguinte fui informado que é propriedade de uma família que reside em Cimo de Vila. É de elementar justiça felicitar essa família pelo facto de manterem em funcionamento aquela preciosidade, certo de que além de lhe dedicarem muito carinho, o facto de pertencer a uma só família terá sido fundamental para a sua conservação. É que, regra geral, os moinhos são de vários herdeiros e quando assim é o abandono é mais do que certo.

Com uma construção extremamente simples, o moinho de Cimo de Vila é um resistente aos ventos da modernidade.

 

Aqui estão todos os sinais de que ainda não há muito tempo fez farinha: o pó branco, um rato que se esgueirou por um daqueles buracos e, essencialmente, o cheiro da farinha. De realçar, o mecanismo de regulação da tremonha que se pode ver em frente da adelha: um dispositivo rotativo cujo funcionamente será mais explícito na imagem seguinte.

 

De realçar, o mecanismo de regulação da tremonha que se pode ver em frente da adelha: um dispositivo rotativo cujo funcionamento será mais explícito na imagem seguinte. À esquerda podemos ver também o tanganho.

 

As mós, a vassoura, a tremonha e respectivo sistema de regulação: ao rodar a peça de madeira que se vê na fotografia anterior, o cordel de suspensão aperta ou desaperta fazendo diminuir ou aumentar o fluxo de grão para o olho da mó.

 

Reservatório da farinha (ou tremonhado) e a típica pá para a apanhar.

 

Muito original, este aliviadouro. Em vez da tradicional cruz tem uma alavanca com um braço mais extenso através do qual é feita a regulação da moagem.

 

Mecanismo de propulsão.


Publicado por Eira-Velha às 16:02 | link do post | comentar
Terça-feira, 30.08.11

Moinhos de Quinteiro

Tinha uma pista e segui-a. Convencido que ainda iria encontrar algo que se visse e disposto a complementar a minha investigação sobre o rodízio de copos, meti-me à estrada. Passei por Porqueira, Longos Vales, onde tentei obter informações sobre os moinhos que já aqui apresentei mas é complicado. Parei junto de um aglomerado de casas, umas quatro ou cinco, e nem os cães ladravam. Passados alguns minutos vi ao fundo de um caminho estreito um vulto que parecia espiar-me. Era uma mulher de uns sessenta anos. Aproximei-me, sem o capacete, calmamente, e ela deslocou-se também na minha direcção com um pequeno pau na mão e não era para servir de apoio :) Disse-me que não era dali natural, que os moinhos já não funcionavam há mais de quarenta anos, que quem fez os rodízios já tinha morrido duas ou três vezes... Ainda indaguei se haveria por ali quem me pudesse dar algumas informações mais convincentes mas, assim como quem se quer livrar da minha presença disse-me que fosse andando a ver se encontrava alguém...

Foi o que eu fiz, fui andando, andando, mas quando dou conta já as últimas casas ficavam para trás e gente nem vê-la.

Continuei pela estreita estrada em direcção a Merufe, mais concretamente a Quinteiro. Foi um percurso fácil e rápido, Porqueira fica no limite de Longos Vales, para o lado de Merufe e Quinteiro no limite de Merufe para o lado de Longos Vales. Atravessei a pequena localidade e nem tive necessidade de perguntar onde ficavam os moinhos porque as indicações eram muito precisas e, de facto, um relance de vista para uma encosta em frente e lá se viam os vultos verdejantes do que deveriam ser os meus alvos. E eram. Cobertos de aradeiras, não são moinhos mas apenas os escombros do que já foram. Os caboucos vazios não me deram quaisquer indicações acerca do modelo de rodízio de que foram dotados e do interior também nada me foi possível retirar.

Para a posteridade fica o registo de que no lugar de Quinteiro, em Merufe, houve tempo em que se fazia farinha em moinhos de água...

 

Cá temos um. Já foi, seguramente, um lindo moinho, implantado num belo local.

 

Pode não parecer mas debaixo desse montão de aradeiras há os restos de outro moinho...

 

E aqui mais um, o terceiro e último. E mais não digo...

Publicado por Eira-Velha às 15:22 | link do post | comentar
Segunda-feira, 22.08.11

Moinhos de Porqueira II

Bem perto dos dois moinhos já apresentados existe um terceiro cuja construção impressiona pela excelente qualidade de trabalho de pedreiro, embora revele sinais de inactividade prolongada e se encontre muito degradado no que diz respeita aos mecanismos de moagem.

Com dois cubos e dois pares de mós, este engenho deve ter sido muito importante para os seus proprietários, não sendo de desprezar a hipótese de também moer à maquia, que era uma determinada porção de cereal que o moleiro retirava para se pagar do seu labor.

Constou-me (embora não tenha confirmado tal hipótese) que também ali foi produzida energia eléctrica para consumo doméstico do seu proprietário.

O edifício em si distribui-se por três pisos, o cabouco, o piso principal e o sótão, o que o diferencia da grande maioria dos engenhos congéneres existentes na região.

No interior, muito degradado, verifica-se a ausência das mós moventes (há uma encostada num canto que poderia já ter sido substituída por excessivo desgaste), uma segurelha repousa sobre a respectiva mó fixa e, mais atrás, podemos observar um conjunto lobete/veio.

Uma questão importante que ainda não explorei é se os moinhos de Porqueira funcionavam todo o ano ou apenas em parte já que o caudal de água que os alimenta é praticamente nulo no Verão. Porém, não se pode descurar a arte e o engenho dos nossos antepassados fazerem chegar a água aos seus moinhos, havendo um velho ditado que dizia: a água para o moinho leva-se de longe.

Magnífico enquadramento paisagístico

 Uma construção imponente e de qualidade superior

 Rodízio de copos. Só um ainda resiste aos maus tratos

 

Os cubos penetram nas entranhas do moinho em direcção ao cabouco

 

A zona de moagem não se revela muito animadora

Publicado por Eira-Velha às 09:10 | link do post | comentar
Quinta-feira, 11.08.11

Moinhos do Rosal

No Alto Minho é muito fácil descobrir moinhos, principalmente se se percorrerem os caminhos com esse objectivo em mente. E a razão é óbvia: por aqui deu-se muito bem o milho e em tempo de vacas magras, que ainda não vai assim tão distante, em todas as casas se fabricava broa de milho, mais ou menos uma vez por semana. E digo mais ou menos porque para isso era preciso ter grão, do grão fazer farinha e só com este elemento era possível fazer pão, o que nem sempre acontecia.

Mas, dizia eu, é quase tão fácil descobrir um moinho no Alto Minho como um chaparro no Alentejo.

Alguns meses atrás, ia eu a subir custosamente pela estrada municipal n.º 1124, de Ceivães para Badim, quando de repente, na linha de horizonte da íngreme encosta, avisto um magnífico cubo de granito, numa posição bem vertical, na extremidade inferior de um imenso muro do mesmo material que começava com uma altura de uns seis metros e morria cerca de cinquenta metros mais acima na mesma encosta. Algo incrédulo, encostei o meu "rocim" de duas rodas na valeta e desloquei-me a pé até ao local onde avistara o precioso achado e confirmou-se: era um conjunto de três moinhos tipicamente minhotos, um praticamente engolido pela vegetação mas outros dois integrados numa moderna plantação de vinha e com algumas obras de restauro nas graníticas paredes dos moinhos propriamente ditos já que os cubos e os muros que suportavam a conduta da água evidenciam uma perfeição tal que resistiram a todas as adversidades.

Dos elementos de madeira não existe absolutamente nada e da água, elemento essencial para gerar a força motriz que os fez funcionar também não se vislumbram quaisquer indícios. Não há água, não há qualquer ribeiro, ou regato, ou simplesmente uma corga por perto... nada.

Já tinha visto um caso semelhante em Boivão, Valença, um caso particular de disposição dos engenhos fora do curso de água, como é mais comum, mas ali estava sempre presente uma grossa conduta de material plástico que transporta o generoso manancial lá das alturas do Castelo de Fraião até ao vale. Mas neste caso nem isso...

Só havia uma forma de saber o que fazia funcionar aqueles engenhos e para tal era preciso encontrar gente, tarefa que não foi fácil dado que o local fica fora de qualquer aglomerado populacional. As últimas casas de Ceivães já tinham ficado para trás e Badim ainda não tinha começado. Por isso, fui à procura de respostas para as minhas dúvidas e segui para Badim.

Aqui tive a sorte de encontrar a senhora Prazeres Dias Monteiro, oriunda da Gave mas com raízes de cerca de meio século em Badim que, muito amável e a transbordar simpatia, se prestou a dois dedos de conversa enquanto atendia um fornecedor de artigos de mercearia, um pequeno comércio sua propriedade que ainda sobrevive lado a lado com um café.

E disse-me ela que todos aqueles moinhos funcionavam com a água da levada oriunda de Lamas do Mouro!

Eu habituei-me a ver, desde muito pequenino, o trajecto da levada pela Cumieira fora, desde Pomares, passando por Cousso e Virtelo, até se perder de vista pela serra abaixo por cima de Quintela... E contava-se que há muitos, muitos anos, aquando da ocupação árabe, três irmãos mouros eram os senhores das terras do Vale do Mouro, um na zona da nascente, em Lamas do Mouro, outro na zona intermédia em Riba de Mouro e o terceiro na zona da foz, na Ponte do Mouro. Acontecia que o primeiro tinha água em abundância mas não tinha vinho, o segundo tinha água e vinho suficientes e o terceiro possuía vinho em excesso mas carecia de água. Então combinaram que o de Lamas do Mouro forneceria água ao de Ponte do Mouro e este, em troca, forneceria o vinho ao primeiro.

Se o vinho chegava a Lamas do Mouro eu não sei mas a água de Lamas do Mouro regou as terras de Badim, Messegães e Ceivães até há bem pouco tempo. Era uma levada de aproximadamente dezoito quilómetros que, pelos vistos, também fazia mover os moinhos de Badim e Ceivães, na zona da Moucheira, que mais no vale tinham as águas do rio Mouro e os moinhos da Ponte do Mouro...

Só que entretanto a levada foi renovada e entubada, talvez à custa de um desses programas que faziam chegar dinheiro não sei de onde para obras que deveriam rentabilizar a economia mas, à semelhança de muitos outros investimentos análogos, a obra foi feita mas não serviu para nada porquanto nunca mais a água de Lamas do Mouro passou além de Virtelo.

Voltando aos "meus" moinhos, trata-se de uma construção de "planta quadrangular e dois pisos, sendo o térreo (ou ‘cabouco’) parcialmente aberto para alojar o ‘rodízio’ horizontal e no andar sobradado estava instalada o casal de mós e restantes peças do mecanismo-motor.

Paredes autoportantes em blocos de granito com ligeiro desbaste e junta seca, salientando-se, pelas suas dimensões e trabalho de pico, as padieiras e ombreiras das portas. Originalmente eram cobertos com telhados de uma água (...). Os vãos são escassos, resumindo-se à porta de acesso e a alguma fresta, quando exista.

Como se encontram em encosta com declive acentuado eram alimentados pela mesma levada escavada sobre aqueduto em pedra seca em cuja parte terminal se situa o ‘cubo’, composto por anéis pétreos sobrepostos de modo a fazer altura para que a água caísse com força e fizesse accionar o rodízio".

A citação anterior não se refere a estes engenhos mas serve para a grande maioria dos moinhos do alto minho e, no presente caso, encaixa perfeitamente na descrição que eu faria mas para a qual me faltam conhecimentos técnicos adequados.

Impressionantes neste magnífico conjunto são os extraordinários cubos e os aquedutos para lá fazer chegar a água, como se pode observar nas imagens.

 

Este foi o primeiro moinho que avistei. O perfil recortado na linha de horizonte dá uma imagem imponente da grandiosidade destes engenhos. 

 

O conjunto revela um trabalho realmente notável.

 

As pareces do moinho foram consolidadas com cimento mas o interior é isto...

 

 

Imediatamente acima o segundo moinho

 

Não menos espectacular que o primeiro.

 


Publicado por Eira-Velha às 08:16 | link do post | comentar
Terça-feira, 09.08.11

Moinhos de Porqueira I

O lugar de Porqueira pertence à freguesia de Longos Vales, concelho de Monção, mas situa-se na vertende Nascente da Serra da Anta, na intercepção com as freguesias de Barbeita, a Norte e Merufe a Este. Neste minúsculo aglomerado populacional existem três moinhos, dois deles geminados, cujo sistema de propulsão é o rodízio de copos, uma raridade que parece ter o seu epicentro em Merufe com algumas ramificações para os arredores, como é o presente caso.

Hoje vou apresentar apenas os dois engenhos geminados que se encontram à face da estrada municipal que liga a sede da freguesia àquele pequeno e periférico lugar.

São dois engenhos que sofreram importantes obras de conservação num passado recente (1945?) com a aplicação de um tecto em vigas de cimento e tijoleira e capazes de prevalecer em bom estado ainda por muitos anos, com excepção dos componentes de madeira que já se encontram muito degradados e correm o risco de se perderem irremediavelmente a breve prazo.

Só num deles me foi permitido o acesso ao interior.

Pelo que se observa já deixaram de funcionar há bastantes anos.

 

Apresentação geral

 

Interior

 

A mó (andadeira)

 

Rodízio e seteira

Publicado por Eira-Velha às 13:07 | link do post | comentar
Sábado, 06.08.11

Moinho dos Anselmos

Começo por um exemplar que encontrei casualmente e me revelou pela primeira vez uma tipologia de rodízio de características únicas: o rodízio de copos.
Situa-se no lugar de Pretos, freguesia de Merufe, aquele que foi, até agora, o primeiro moinho com um rodízio de copos a ser referenciado.
A origem deste exemplar bastante bem conservado é desconhecida mas já terá mais de trezentos anos, pelo que me disse o decano dos quatro irmãos co-proprietários, conhecidos pelos Anselmos, porque Alselmo era o seu avô. E se a longevidade dos Anselmos for uma questão genética, não será difícil acreditar que os trezentos anos se resumam a pouco mais do que três gerações porque, dos três que tive o grato prazer de conhecer, o mais novo, o Anselmo Vasques Fernandes, tem setenta e cinco anos de idade, o António oitenta e dois e o Manuel irá completar oitenta e cinco no próximo dia 15 de de Outubro.
Quem sabe tudo sobre o Moinho dos Anselmos é o Manuel Vasques Fernandes, que mora nas Poldras, Segude. Homem dos sete ofícios, o Senhor Manuel fazia de tudo: pedreiro, carpinteiro, ferreiro e, certamente, muitas outras artes e ofícios, que na sua criação havia que improvisar de tudo um pouco.
Contou-me ele que o moinho da família tinha um rodízio de penas e um cubo de caixa, um cubalhão feito de perpianhos colocados ao alto, uma espécie de tanque enorme a cujo interior o Manuel acedeu várias vezes com uma escada para tapar as juntas com cimento. Contudo, a pressão da água e a frágil construção acabavam por abrir novas fendas e muita da água escoava-se fazendo diminuir a pressão e, consequentemente, a força do moinho.
Por isso, seu pai mandou fazer um novo cubo de anéis de granito, dispostos uns em cima dos outros com adequada inclinação, tendo também complementado essa peça com uma seteira em cimento.
Depois disso, decidiram alterar também o conhecido modelo de rodízio de penas por um rodízio de copos que, pelo que me disse o Senhor Manuel, já guarnecia diversos engenhos de moagem lá por Merufe. O primeiro rodízio de copos, construído pelo Senhor Manuel, era todo em madeira. O actual foi feito com aplicação das telas laterais de um pneumático de tractor agrícola no lugar dos aros de madeira que guarnecem os aros inferior e superior do rodízio.
Com as alterações então introduzidas, o moinho ganhou eficácia e passou a funcionar muito melhor.
O rodízio tem um raio de 46 centímetros a contar da periferia do touço, nome pelo qual é por eles designada a haste, e este tem uma espessura de 16 centímetros, o que lhe confere um diâmetro de 108 centímetros, aproximadamente.
Apesar de notar um enorme carinho e até orgulho no seu engenho da parte dos proprietários, temo que num lapso de tempo não muito distante o mesmo acabe como muitos outros com que me tenho deparado nas minhas prospecções, um amontoado de escombros coberto de mato.
Está ali, bem "camuflado, no meio de densa vegetação
Uma belíssima construção e integração na paisagem
Rodízio de Copos
No interior com o António (à esquerda) e o Anselmo (à direita)
As mós
A adelha
O aliviadouro

Nota: Este artigo foi publicado originalmente no Facebook.
Publicado por Eira-Velha às 19:19 | link do post | comentar
Sexta-feira, 05.08.11

Os Moinhos de Monção

No concelho de Monção, os moinhos de água proliferaram como cogumelos. Para tal conjugaram-se factores diversos que favoreceram a adopção deste tipo de engenhos, designadamente abundância de água, condições excepcionais para o cultivo do milho, a que não foi alheio um forte crescimento demográfico no Século XIX e uma arquitectura e tecnologias muito simples e económicas. Eram, na maior parte dos casos, pequenas unidades de um só par de mós e propriedade de vários titulares cuja quota-parte era medida em tempo de moagem.
É um património vastíssimo e de difícil inventariação dado o estado de degradação e abandono quase total a que foi votado a partir da segunda metade do Século passado.
Segundo dados recolhidos por Magnus Wolfe Murray através dos arquivos da Delegação de Viana do Castelo da Administração dos Recursos Hídricos do Norte, em 1941 havia registo de 663 moinhos no concelho de Monção, distribuídos conforme consta da ilustração que se segue, também da sua autoria:
A prodigalidade do número de unidades existentes em 1941 é perfeitamente compreensível no contexto do sistema agrário da região – o minifúndio – e da hidrografia que, fazendo parte da bacia hidrográfica do Rio Minho, é composta por uma densa rede de córregos e ribeiros que alimentam os principais cursos de água, o Mouro e o Gadanha excluindo-se, naturalmente, o rio Minho em cujo percurso não me parece que tenha existido qualquer unidade moageira.
Esquema meramente exemplificativo da rede hidrográfica no concelho de Monção
Se o regime de propriedade e as condições hidrográficas favoreceram a construção massiva de moinhos, a falta de vias de comunicação e de transportes também provocava o isolamento das populações e obrigava as comunidades a tornarem-se praticamente auto-suficientes, reforçando as condições para a multiplicação dos engenhos transformadores da matéria prima.
Outro factor a ter muito em conta na profusão destes engenhos é a simplicidade da tecnologia empregue, construída quase na totalidade com recursos naturais locais (a madeira e o granito). De produção industrial verifica-se apenas o recurso a duas peças fundamentais para o funcionamento dos moinhos: a segurelha e o veio, dois artifícios em aço que, combinados, transmitem o movimento de rotação do rodízio, provocado pela força da água, à mó movente de forma directa, isto é, o número de rotações do rodízio é o mesmo que se verifica na mó andadeira.
As causas que favoreceram o abandono e a ruína dos moinhos do Alto Minho são diversas mas podemos destacar duas:
  • O abandono gradual das terras devido ao êxodo massivo da população activa que se verificou nas décadas de sessenta e setenta do século passado associado a uma forte desvalorização dos produtos agrícolas, especialmente o milho que, em tempo de crise, era usado como moeda nas trocas comerciais;
  • A introdução de pequenas e práticas unidades domésticas de moagem, movidas a energia eléctrica.
Há ainda outro factor a ter em conta que foi o sistema de propriedade. De facto, a grande maioria destes engenhos teria sido construída em regime de co-propriedade e mesmo aqueles que pertenciam a um só proprietário acabaram por ser espartilhados através de heranças sucessivas. No lugar de Cavenca, em Riba de Mouro, havia casos em que uma família só tinha direito a um dia ou noite de moagem de três em três meses. Claro que, quanto mais dividida fosse a propriedade, maior era a tendência para o abandono o que, aliado aos outros factores enunciados, ditou a “morte” prematura de muitos e a ruína completa da maior parte.
Dos que resistiram a todas as adversidades falta fazer um inventário. Serão ainda duas ou três dezenas e, em geral, subsistem nas aldeias mais montanhosas onde ainda se verifica alguma criação de gado e cultivo de cereais.
Os moinhos de Monção, salvo raras excepções, caracterizam-se por ser uma construção muito pequena e isolada, de uma ou duas águas, feita em pedra solta com prevalência do granito ou do xisto e, muitas vezes, uma mistura das duas, sendo a cobertura feita de telha de canudo (gradualmente substituída por telha marselha). Primitivamente a cobertura também poderia ser de colmo e, em tempos mais recentes, passaram a usar-se outros materiais de maior durabilidade tais como a folha zincada ou placas de cimento.
Algumas excepções encontramo-las apenas nos últimos troços do curso dos rios Mouro e Gadanha onde existem vestígios de unidades moageiras de dimensão considerável, com casa para o moleiro e seguramente para a família, o que denota tratar-se de explorações que ultrapassavam o âmbito meramente familiar.
No que diz respeito à tipologia são três os grupos distintos que encontramos na região: os moinhos de azenha de propulsão inferior, muito raro mas do qual há vestígios no rio Mouro, no lugar de Ponte do Mouro, freguesia de Ceivães; os moinhos de rodete submerso com forte implantação no Vale do Gadanha, no rio Mouro e também, pelo menos um, na ribeira de Lara e os moinhos de rodízio ou de roda motriz horizontal, de forma mais generalizada por todo o concelho.
Os rodízios mais conhecidos são os rodízios de penas, incluindo-se nesta designação uma variante muito comum e de mais simples concepção que é o rodízio de tacos. Porém, há uma freguesia de Monção onde se desenvolveu e sedimentou um modelo de rodízio que parece permanecer incógnito perante a comunidade molinológica: é o rodízio de copos cuja implantação tem o seu centro em Merufe, podendo repercutir-se pontualmente em algumas localidades limítrofes.
Neste espaço pretendemos inventariar, através de imagens, descrições e localização, o maior número possível destes fabulosos engenhos, do concelho de Monção e não só...

Nota importante: Este texto, à excepção do último parágrafo, faz parte de um artigo da minha autoria a publicar num dos próximos números de Molinologia Portuguesa
Publicado por Eira-Velha às 21:31 | link do post | comentar
Quinta-feira, 04.08.11

Rodízio de Copos

Um post à experiência...

Publicado por Eira-Velha às 18:39 | link do post | comentar

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